Durante muito tempo, o espaço escolar foi tratado como um local onde professores ensinavam e estudantes aprendiam. Nessa concepção, paredes, mobiliário, iluminação, acústica e disposição das mesas eram aspectos predominantemente funcionais, muitas vezes definidos antes mesmo de se discutir quais experiências de aprendizagem deveriam acontecer naquele ambiente.

As transformações contemporâneas da educação, entretanto, vêm ampliando essa perspectiva. O ambiente não é neutro. Ele influencia deslocamentos, interações, comportamentos, possibilidades de participação e percepções de conforto, segurança e pertencimento. Uma sala organizada exclusivamente em fileiras favorece determinadas dinâmicas pedagógicas; um espaço com diferentes zonas de trabalho, superfícies compartilhadas e mobiliário reconfigurável permite outras formas de ensinar e aprender.

Isso não significa que arquitetura, design ou mobiliário produzam aprendizagem isoladamente. Tampouco significa que uma sala visualmente moderna garanta inovação pedagógica. A transformação acontece quando espaço físico, intencionalidade pedagógica, tecnologia, relações humanas e conhecimentos sobre como as pessoas aprendem são articulados de maneira coerente.

Essa perspectiva esteve presente em diferentes discussões do Edspaces 2025, encontro internacional dedicado ao planejamento e ao design de ambientes educacionais. Entre os assuntos apresentados estavam ambientes flexíveis, inclusão, neurodiversidade, bem-estar, movimento, inteligência artificial, educação profissional e espaços centrados nos estudantes.

Educar é mais do que transmitir conteúdos

Na apresentação oficial de PIVOT: Empowering Students Today to Succeed in an Unpredictable Tomorrow, Ravi Hutheesing sintetiza uma ideia especialmente importante para compreender o papel contemporâneo da escola: “Education is more than just going to school.”

A frase aponta para uma compreensão de educação que ultrapassa a escolarização formal. Aprender envolve experiências, relações, desafios, descobertas, participação social e desenvolvimento de autonomia.

Em um contexto no qual informações podem ser acessadas instantaneamente por mecanismos de busca, plataformas digitais e sistemas de inteligência artificial, o valor da escola não pode estar restrito à transmissão de conteúdos. Hutheesing argumenta que, diante das transformações provocadas pela globalização e pela IA, preparar os estudantes para um futuro imprevisível envolve desenvolver aprendizes autônomos e permanentes, capazes de adaptar-se e continuar aprendendo. https://raviunites.com/pivotbook-forewords/

Nessa perspectiva os espaços escolares  precisam, portanto, oferecer também aquilo que dificilmente é reproduzido pela experiência individual diante de uma tela como: convivência, diálogo, experimentação, construção coletiva, escuta, mediação, pertencimento e desenvolvimento humano.

Nesse cenário, o espaço físico adquire relevância pedagógica. Ele precisa criar condições para que os estudantes possam não apenas receber informações, mas formular perguntas, investigar problemas, testar hipóteses, dialogar, produzir conhecimento e refletir sobre suas próprias escolhas.

Colegio Adventista da Pedreira Sala Infantil 1 02

O espaço físico participa da experiência de aprendizagem

Um ambiente educacional não ensina conteúdos por conta própria, mas pode facilitar ou dificultar as experiências necessárias para que a aprendizagem aconteça.

Condições como iluminação, ventilação, temperatura, qualidade acústica, conforto postural, organização visual e possibilidades de reconfiguração interferem na forma como crianças, adolescentes e professores utilizam o ambiente.

No Brasil, Bilésimo, Custódio e Ghisi (2021) realizaram uma revisão sistemática sobre conforto térmico de crianças e adolescentes em salas de aula. O resultado da pesquisa indica que o ambiente escolar precisa ser pensado considerando atividade pedagógica, faixa etária, diversidade dos usuários, contexto climático, tempo de permanência e características da própria escola.

Por isso, o planejamento não deveria começar pela escolha de um produto ou por uma decisão estética. Deveria começar por perguntas como: Que experiências desejamos proporcionar? Como os estudantes irão investigar, dialogar, criar, experimentar, movimentar-se, concentrar-se e compartilhar o que aprenderam?

Da sala uniforme ao ecossistema de aprendizagem

Uma das tendências presentes no EDspaces 2025 foi a organização dos ambientes em diferentes zonas, superando a lógica de uma configuração única e permanente. Os espaços não são pensados como compartimentos rígidos: estudantes e educadores podem transitar entre eles, conforme a tarefa, o nível de atenção necessário ou a dinâmica de aprendizagem.

Vale ressaltar que ambientes organizados com mobiliário predominantemente fixo tendem a restringir a diversidade de configurações espaciais e, consequentemente, as possibilidades de interação, agrupamento, movimento e participação dos estudantes. Em contrapartida, espaços flexíveis e reconfiguráveis permitem adequar o ambiente às diferentes intencionalidades pedagógicas, favorecendo experiências de aprendizagem mais diversificadas, colaborativas e coerentes com as demandas de cada atividade.

Um ambiente flexível amplia as possibilidades. Flexibilidade, entretanto, não deve ser confundida com improvisação permanente. Para funcionar pedagogicamente, o espaço precisa apresentar legibilidade, organização, circulação adequada, recursos acessíveis e critérios de uso compreendidos por professores e estudantes.

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O mobiliário como interface entre corpo, espaço e aprendizagem

Dentro desse ecossistema, o mobiliário merece atenção particular.

Mesas e cadeiras estão entre os elementos com os quais os estudantes mantêm contato durante grande parte da jornada escolar. Por isso, sua função não deveria ser analisada apenas sob uma perspectiva estética ou de ocupação do espaço.

Castellucci e colaboradores (2017) realizaram uma revisão sistemática especificamente sobre a influência do mobiliário escolar nas respostas físicas e no desempenho dos estudantes. Os pesquisadores identificaram a compatibilidade entre as dimensões do mobiliário e as características antropométricas dos alunos como elemento importante para conforto e respostas físicas. Esse achado é relevante porque estudantes da mesma turma podem apresentar diferenças significativas de estatura, proporção corporal e necessidade postural. A revisão encontrou também resultados favoráveis associados a determinados desenhos de mobiliário, embora os autores ressaltem a necessidade de mais estudos controlados para estabelecer efeitos sobre desempenho acadêmico.

A ideia de que um único tamanho de mesa e cadeira atenderá igualmente a todas as crianças e adolescentes precisa, portanto, ser examinada com cautela.

Nesse sentido, ergonomia escolar envolve considerar:

  • adequação antropométrica;
  • faixa etária;
  • diversidade corporal;
  • postura;
  • tempo de permanência;
  • pontos de apoio;
  • mobilidade;
  • atividade realizada;
  • possibilidade de alternância postural.

Mobiliário não produz aprendizagem. Ele cria possibilidades de uso, movimento, organização do ambiente e flexibilidade.

A flexibilidade física só se transforma em flexibilidade pedagógica quando professores e estudantes conhecem as possibilidades do ambiente e conseguem relacioná-las aos objetivos da atividade.

Segundo a pesquisa, Bluteau, Aubenas e Dufour (2022) compararam estudantes de 5º e 6º anos em três salas com assentos flexíveis e três salas com configurações fixas.  O estudo é particularmente relevante porque questiona a ideia de que exista um único ambiente ideal para todos. Preferências individuais, necessidades sensoriais, características pessoais, natureza da atividade e contexto pedagógico precisam ser considerados.

Projetar ambientes que ensinam, portanto, não significa simplesmente substituir carteiras tradicionais por móveis de formas diferentes.

Significa articular: variedade + adequação antropométrica + possibilidade de movimento + escolha + intencionalidade pedagógica.

O mobiliário torna-se, dessa maneira, uma interface entre corpo, espaço e aprendizagem.

O que a neuroaprendizagem pode e não pode explicar

A aproximação entre neurociência, psicologia cognitiva, ergonomia e educação pode contribuir para compreender melhor a experiência dos estudantes, desde que seja realizada com rigor.

Não existe uma fórmula arquitetônica capaz de “ativar o cérebro”. Também não há uma cor, um móvel ou uma tecnologia que produza aprendizagem automaticamente. Afirmações dessa natureza simplificam processos complexos e podem contribuir para a disseminação de neuromitos.

Neste contexto, o termo neuroaprendizagem deve ser compreendido como uma aproximação interdisciplinar entre conhecimentos sobre cognição, desenvolvimento, comportamento, emoção e educação  e não como um manual que prescreve como um ambiente deveria ser construído.

As ciências da aprendizagem ajudam a compreender que atenção, memória, emoção, motivação, movimento e autorregulação interagem com diferentes elementos:

  • a natureza da tarefa;
  • o conhecimento prévio do estudante;
  • a qualidade das relações;
  • o nível de desafio;
  • as condições físicas do ambiente;
  • as oportunidades de participação;
  • o feedback recebido.

A contribuição desse conhecimento para arquitetura e design está menos em dizer como o cérebro deve aprender e mais em perguntar quais condições reduzem barreiras e ampliam possibilidades para aprender. O desafio está no equilíbrio.

Emoção, segurança e pertencimento

A maneira como o estudante percebe o ambiente também importa.Espaços percebidos como   confusos, excessivamente estimulantes ou excludentes podem dificultar a participação de alguns estudantes. Ambientes mais compreensíveis, acessíveis e acolhedores podem contribuir para sentimentos de segurança e pertencimento. Esses recursos não substituem relações pedagógicas de qualidade, acompanhamento psicológico ou políticas institucionais de cuidado. Eles fazem parte de um ecossistema.

Autonomia também se aprende

Ambientes flexíveis podem oferecer aos estudantes oportunidades para decidir onde trabalhar, como se organizar e quais recursos utilizar. Mas escolha não significa ausência de orientação. A autonomia precisa ser construída pedagogicamente.

O estudante precisa aprender a identificar quais condições favorecem sua concentração, quando precisa interagir, quando deve alterar uma estratégia, quando buscar ajuda e como suas decisões afetam o trabalho coletivo. Essa perspectiva aproxima o planejamento dos ambientes da ideia de agência.

Tecnologia: infraestrutura ou experiência?

A tecnologia transforma o ambiente escolar quando amplia a capacidade dos estudantes de investigar, criar, comunicar, experimentar e resolver problemas. Telas, dispositivos móveis, inteligência artificial, realidade aumentada, recursos audiovisuais e ambientes imersivos podem ampliar formas de representação e interação. Mas a presença dessas tecnologias não torna uma sala inovadora.Uma sala com recursos tecnológicos avançados pode continuar sustentando práticas exclusivamente transmissivas.

Por isso, mais do que perguntar “Qual tecnologia colocar nesta sala?” seria: “Que experiência de aprendizagem queremos ampliar com essa tecnologia?”

CuoreLab: o espaço como ecossistema

O conceito CuoreLab dialoga com essa perspectiva ao propor um ambiente de aprendizagem ativo e reconfigurável, integrando superfícies colaborativas, mobiliário móvel, tecnologia, acústica, elementos biofílicos, iluminação e diferentes possibilidades de organização.

A proposta parte da ideia de que, em uma sociedade na qual conteúdos e informações podem ser acessados por inúmeros meios digitais, a escola precisa fortalecer-se como espaço de experiência, convivência, colaboração e construção coletiva. Mais relevante do que cada elemento isoladamente é a lógica de integração.

Um mesmo ambiente pode ser organizado para exposição, investigação, colaboração, experimentação, produção, discussão, apresentação e reflexão. Essa abordagem aproxima o espaço de uma concepção de ecossistema de aprendizagem.

Dez princípios para construir ambientes que ensinam

  1. Começar pela experiência de aprendizagem, não pelo produto.
  2. Considerar o espaço como parte do planejamento pedagógico.
  3. Criar diferentes zonas e possibilidades de participação.
  4. Relacionar mobiliário à diversidade antropométrica e às atividades realizadas.
  5. Permitir movimento e alternância postural sem transformar flexibilidade em desorganização.
  6. Considerar acústica, iluminação, ventilação e conforto térmico desde o início.
  7. Integrar tecnologia ao ambiente sem enfraquecer a interação humana.
  8. Projetar para a diversidade física, cognitiva, sensorial e emocional.
  9. Preparar professores e estudantes para utilizar as possibilidades do ambiente.
  10. Avaliar continuamente como o espaço é utilizado e quais efeitos são percebidos por seus usuários.

O ambiente como expressão de uma concepção de educação

Toda escola possui uma arquitetura pedagógica, mesmo quando ela nunca foi conscientemente planejada. Os espaços comunicam quem pode falar, como as pessoas se relacionam, quais atividades são valorizadas e quanto espaço existe para escolha, experimentação, colaboração, concentração e diferença.

É nesse sentido que podemos falar em ambientes que ensinam: não porque paredes, móveis ou telas substituam o professor, mas porque cada decisão sobre o ambiente pode ampliar  ou restringir  as possibilidades de aprender.

    Referências

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